Arquivo de Abril, 2008

Bico de Pena volta a publicar Ali Smith

Falta pouco. É já em Maio que a editora Bico de Pena volta a publicar a escritora escocesa Ali Smith ( já editaram o romance premiado A Acidental).
Agora é a vez do romance Hotel Mundo que esteve na shortlist do Orange Prize for Fiction e do Man Booker Prize for Fiction no ano em que saiu no Reino Unido, em 2001. 

Conheci Ali Smith há alguns anos. Era Verão, estávamos em Cambridge, num seminário organizado pelo British Council. Não sabia quem ela era, nem conhecia a sua obra. Mas desde aquele dia em que no Downing College, Ali Smith – pequenina, com uns olhos azuis que hipnotizam por causa do contraste que fazem com os seus cabelos muito negros –  começou a ler um dos seus contos em voz alta nunca mais saiu da lista dos meus escritores preferidos. Faria parte do meu top ten, se eu o tivesse.
Entretanto (para alegria de todos nós) a sua obra já está a ser traduzida em Portugal, na Bico de Pena e na Teorema (faltam os livros de contos que são os meus preferidos).

Quanto a Hotel Mundo, fica aqui um bocadinho:

” (…) aaaaaaaaaah e partiu-se no chão, eu também me parti toda. O tecto veio abaixo, o fundo trepou ao meu encontro. Parti a coluna, parti o pescoço, parti a cara, parti a cabeça. A caixa torácica que envolvia o meu coração partiu-se em duas e o meu coração saiu cá para fora. Acho que era o meu coração. Saltou-me do peito e entalou-se-me na boca. Foi assim que tudo começou. Pela primeira vez (demasiado tarde), descobri o sabor do meu coração.
Tenho sentido saudades de ter um coração. Saudades do barulho que costumava fazer, da maneira como punha o calor em circulação, da maneira como me mantinha acordada. Vou de quarto em quarto, aqui, e vejo camas desfeitas depois de amor e de sono, e a seguir camas feitas de lavado e prontas, novamente à espera que corpos se enfiem dentro delas; lençóis engomados e dobrados para trás, camas de boca aberta a dizerem bem-vindo, despacha-te, entra, o sono está a chegar. As camas são tão convidativas. Abrem a boca de uma ponta à outra do hotel, todas as noites, para os corpos que se enfiam dentro delas, uns com os outros ou sozinhos; todas as pessoas com os seus corações a pulsar, a ocuparem espaços deixados vazios por outras pessoas, que partiram sabe-se lá para onde, que há apenas umas horas aqueciam esses mesmos espaços.
Tenho andado a tentar lembrar-me de como era dormir sabendo que se ia acordar. Tenho andado a observá-los com toda a atenção, os corpos, e a ver o que os seus corações os deixam fazer. Tenho andado a vê-los dormir, depois; tenho-me sentado aos pés de camas satisfeitas, camas insatisfeitas, camas que ressonam, indiferentes, insones, camas de pessoas que não sentiram presença alguma ali, ninguém no quarto a não ser elas.
Despacha-te. O sono está a chegar. As cores estão-se a esbater. (…)”

in Hotel Mundo de Ali Smith na Bico de Pena (tradução de Tânia Ganho)

Ali Smith esteve o ano passado em Portugal a convite da Culturgest por causa de uma peça de teatro da sua autoria. Pode ler aqui e aqui a entrevista que deu ao Ípsilon nessa altura.

 

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Equador finalmente em língua inglesa

Equator de Miguel Sousa Tavares finalmente editado pela Bloomsbury, numa versão hardback, em língua inglesa. O romance Equador – se entretanto não houver alteração da data – vai ser publicado no dia 7 de Julho de 2008.

Até agora Miguel Sousa Tavares teve três propostas para passar o livro a filme: uma portuguesa e outras duas de outros países europeus, ainda não disse que sim a nenhuma.

Entretanto a equipa que integra o projecto da série de 26 episódios que adapta para a televisão o romance parte hoje para a Índia onde vão começar as gravações. As filmagens vão decorrer ainda no Brasil, em São Tomé e em Portugal. É uma produção Plano 6, co-produção da TVI, adaptação escrita dos ScriptMakers e coordenação de projecto de André Cerqueira. Pode ler mais sobre isto aqui.

O regresso da Revista Ler


A nova revista Ler já está nas bancas. Passou a mensal e tem de novo Francisco José Viegas na sua direcção. Na capa: uma entrevista ao escritor António Lobo Antunes realizada por Carlos Vaz Marques. Antes do site que vai aparecer lá para o final do ano a revista já tem um blogue.

P.S. No blogue está um editorial de Francisco José Viegas sobre balbúrdia que vai na organização da Feira do Livro de Lisboa. A não perder.

O meu mais recente vício: a Titlepage.tv

É aquilo a que se pode chamar uma novidade. Nunca se fez, é a primeira vez. Há cerca de dois meses, a 3 de Março, o famoso editor norte-americano Daniel Menaker começou a produzir (juntamente com a Brown Hats Productions) e a ser o apresentador de um programa sobre livros. Nada de estranho até aqui. A não ser isto: o programa não passa em nenhum canal de televisão, é concebido para ser visto num ecrã mas só existe na Internet. A Titlepage.tv é aquilo a que eles chamam um “Internet book show” e na primeira temporada contam fazer seis episódios.

Eu estou viciada, confesso. Estou completamente viciada na Titlepage.Tv. Não consigo desgrudar. A seguir a Sleeper Cell , a Lost e a Californication deu-me agora para isto. Quer perceber porquê? Carregue no vídeo em cima para ver o quarto episódio. Também mantêm um blogue Loud, Please! e criaram um grupo no Facebook.

Numa época em que os jornais de todo o mundo encurtam o espaço dedicado aos livros e à crítica literária e em que os programas de televisão exclusivamente sobre livros são cada vez mais raros, será este o caminho?, interrogava-me nestas Ciberescritas. Cada vez estou mais convencida disto: o futuro está a passar por aqui.

Manuscritos e autógrafos de Saramago no sítio Web da BNP

 

O sítio Web da Colecção de José Saramago da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) já está a funcionar. 

“A BNP é detentora de uma parcela do espólio do autor de Memorial do Convento que procedeu à sua doação em diferentes ocasiões (1994, 1998 e 1999), contando-se, entre os documentos entregues, textos próprios, obras de terceiros, correspondência e o original do diploma do Prémio Nobel da Literatura (1998)”, explicam.

Neste sítio Web é possível ver materiais preparatórios para O Ano da Morte de Ricardo Reis – como esta página de uma agenda com notas para a escrita deste romance que é a imagem deste post; está lá o texto de apresentação para a Agenda da Biblioteca Nacional de 2002 intitulado Depois de Einstein já não há por aí quem ouse  (autógrafo assinado,). Além das provas tipográficas com emendas e acrescentos As opiniões que o D.L. teve e mais do que uma versão de O Embargo. È possível ver digitalizado o pergaminho entregue pela Academia Sueca ao Prémio Nobel da Literatura português.

Mas se quer ver “ao vivo” este documento e a medalha, bem como alguns destes manuscritos, deve ir visitar a  exposição José Saramago: a consistência dos sonhos, patente ao público na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I, no Palácio Nacional da Ajuda, até 27 de Julho. Ou vê-lo neste vídeo sobre a exposição que coloquei num post anterior.

 

Amanhã pode ler no suplemento Ípsilon

De que matéria são feitos os Heróis Independentes do Indie Lisboa? No tema de capa do próximo Ípsilon mergulhamos no universo de Johnnie To (figura de culto do “action cinema” de Hong Kong) de José Luís Guerin (cineasta espanhol rodeado de fantasmas) e explicamos a razão do “hype” que rodeia o novo cinema romeno. (E o IndieLisboa vai mesmo perguntar, num debate já agendado: será que este novo cinema romeno é aquilo que o cinema português quer ser quando for grande?)

Dashiell Hammett: a evocação de um ardina, detective, alcoólico, comunista e promíscuo que reinventou o romance policial e se tornou ícone da literatura americana. Os seus últimos cinco romances estão outra vez a ser lançados em Portugal na Quinto Selo.
Enrique Vila-Matas (a propósito da publicação de Exploradores do Abismo, fala de si próprio e de um outro que escreve por ele. Enfim, vila-matiano…~Meredith Monk regressa a Portugal para três concertos que são uma viagem pela sua obra. Viajámos com ela…Ouvimos a muito aguardada integral das sinfonias de Beethoven, por Jos van Immerseel.
E ouvimos o novo álbum dos Tindersticks – regresso imaculado, dizemos nós.

A Consistência dos Sonhos de José Saramago: apontamentos em vídeo

A não perder, absolutamente a não perder. É obrigatório ir visitar a exposição A Consistência dos Sonhos, sobre a vida e obra de José Saramago na Galeria de Pintura do Rei D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, até ao dia 27 de Julho de 2008.

A sensação que se tem quando se percorrem as salas desta mega-exposição comissariada por Fernando Gómez Aguilera (da Fundação César Manrique, Lanzarote) é que, ao passar pelas vitrinas com os mais de 1200 documentos expostos, é o escritor que nos está a abrir as portas de sua casa e do Arquivo Fundação José Saramago, sem, na realidade, o ter feito.

Manuscritos, cadernos de apontamentos pretos, uma agenda com a curiosidade de nela estar anotado o dia em que conheceu a sua actual mulher, vários romances inéditos e inacabados (como O Mel e o Fel e Os Emparedados, 1950-53) ou, por exemplo, notas para um romance que não foi escrito intitulado O Sistema. Estão lá recortes de jornais, objectos pessoais do escritor, fotografias, cartas, apontamentos, vídeos, cartazes e livros.
José Saramago esteve na inauguração e aqui pode ler um artigo sobre a obra do escritor que subverteu a pontuação . Em que é que o Prémio Nobel da Literatura 1998 inovou? Respondem académicos e três escritores que são Prémio José Saramago.


Sobre

Este é um blogue do PÚBLICO, escrito por Isabel Coutinho. Desde 1996, a jornalista assina semanalmente a coluna Ciberescritas sobre o futuro dos livros, a presença de escritores na Internet e a relação entre as novas tecnologias e a literatura. isabel.coutinho@publico.pt

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del.icio.us Isabel Coutinho

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